O CONVENTO DO SALVADOR, EM ALFAMA-LISBOA , E AS CASAS NOBRES DOS ESTEVES DE AZAMBUJA, ARCOS
E NORONHAS, DE ALENQUER
É digno de interesse a relação entre o
Convento do Salvador, em Alfama, e ao lado o Palácio dos condes dos Arcos, e as nobres casas que foram dos Esteves de Azambuja,
os condes dos Arcos e os Noronhas, de Alenquer, D. Leão e D.Tomás.
Com efeito, por volta de 1390, D. João
Esteves de Azambuja, que foi bispo do Porto e depois arcebispo de Lisboa, fundou no largo do Salvador, em Alfama, o Convento
desse nome, que só mais tarde foi acabado, em 1478, por D. Leonor, mulher de D. João II. Esse Convento situava-se no flanco
norte desse largo do Salvador que com uma explêndida acácia dominava uma bela paisagem sobre o bairro de Alfama. Ao lado desse
Convento foi construído, no número 22, o Palácio do século XVII que foi dos condes dos Arcos e que depois passou para a Casa
de S. Miguel, possuindo brasão num cartel de estilo barroco. Este Palácio terá sido palco dos acordos de ligação entre núcleos
e vínculos das Famílias descendentes de D. João Esteves, como foi D. Leão de Noronha (1510-1572) e as Casas dos condes de
Arcos e posteriormente a Casa de S. Miguel.
D. Leão de Noronha. que está sepultado
no ex-Convento e Igreja de S. Francisco, de Alenquer, com brasão e lápide de grande destaque perto da Casa do Capítulo, foi
possuidor do famoso "Prazo de Dom Leão de Alenquer" e era um descendente daquele arcebispo D. João Esteves de Azambuja, há
quarta geração.
Muito mais tarde um bisneto de D. Leão
de Noronha, de nome D. Tomás de Noronha, casou em 1646 com D. Madalena de Brito e Bourbon, filha do 1º conde dos Arcos, D.
Luis de Lima Brito de Noronha. D. Tomás de Noronha que foi conselheiro de Estado do rei D. Afonso VI, tornou-se, pelo casamento,
no 3º conde dos Arcos porque o 2º conde, seu cunhado, irmão de sua esposa, faleceu sem deixar descendência. Este D. Tomás
de Noronha está também sepultado no ex-convento de S. Francisco de Alenquer; serviu na armada real de Ceuta e foi com o seu
irmão D. Francisco um dos 40 conjurados da Revolução de 1640. Teve catorze filhos
e faleceu em 1669. Um seu neto com nome idêntico ao seu, D. Tomás de Noronha e Brito, nascido em 1679 casou duas vezes. Casou
D. Tomás (neto) na primeira vez, em 1705, com 26 anos, com D. Madalena Bruno de Castro, com 16 anos, filha dos condes de Assumar.
Teve quatro filhos e quatro filhas. O segundo casamento deu-se em 1731 com D. Antónia Xavier de Lencastre, esta com 20 anos
e ele agora com 52. O curioso é que nesse mesmo ano do seu 2º casamento também casou o seu filho D. Marcos José de Noronha
e Brito, do 1º casamento, com uma irmã da D. Antónia Xavier de Lencastre, portanto irmã da segunda mulher do seu pai. A mulher
do filho, foi D. Maria Xavier de Lencastre, que passou a ser ao mesmo tempo, nora e cunhada do Sr. D. Tomás de Noronha e Brito.
Estas duas senhoras irmãs, eram filhas dos 3ºs. condes de S. Miguel. Assim e por aqui a Casa de S. Miguel ligou-se à Casa
dos condes d' Arcos.
D. Marcos José de Noronha e Brito foi o
6º conde d' Arcos; teve dois filhos, que morreram cedo, e mais seis filhas. A herdeira da Casa foi D. Juliana Xavier de Noronha
e Brito, nascida em 1732 e casou em 1765 com D. Manuel José de Noronha e Meneses, filho do 4º marquês de Marialva e 6º conde
de Cantanhede. Este Senhor, pelo casamento, tornou-se no 7º conde dos Arcos. Esta nobre Casa estava, por volta de 1900, representada
na pessoa de D. Maria do Carmo das Dores do Socorro e Neiva da Costa Macedo Giraldes Barba de Noronha e Brito Meneses, 11ª
condessa, nascida em 1866. Pelo seu 2º casamento com D. Henrique José de Brito e Meneses de Alarcão, começa, julgamos, a perder-se
a varonia dos Arcos passando para a de Alarcão e o 12º conde dos Arcos foi D. José Manuel de Noronha e Brito de Meneses e
Alarcão que casou com D. Maria Margarida de Jesus Maria Clara Francisco Xavier de Mendonça, em 1936, proveniente da Família
dos condes de Azambuja, duques de Loulé e viscondes de Moçamedes.
O antigo e famoso "Prazo de Dom Leão,
em Alenquer", passou a ser representado pelos condes dos Arcos, e pela fonte de recursos a que nos socorremos e que abaixo
referenciamos, inferimos que o Senhor D. José Manuel de Noronha e Meneses de Alarcão era à época de 1945, daquele documento,
talvez o próprio 12º conde dos Arcos que atrás referimos, ou então um descendente com idêntico nome.
Voltando ao Palácio dos condes dos
Arcos, podemos dizer, por aquilo que já lemos, que o mesmo foi quase destruído com o terramoto de 1755. Foi, contudo, reedificado
e com as obras que teve no século XIX, a sua traça primitiva ficou bastante alterada. A fachada possuia 8 janelas de sacada
no andar nobre, tendo mais 3 pavimentos. O portal tinha as armas dos Arcos, com as quinas de Portugal, no 1º e 4º quarteis
do brasão e no 2º e 4º quarteis estavam dois leões rompantes com bordadura de ouro e veios, tudo envolto em bordadura de sete
castelos. O pátio do palácio possui arcarias trípticas de volta perfeita.
Do largo do Salvador, saem duas importantes
ruas: a da Regueira, talvez uma das mais características de Alfama e a outra a rua Guilherme Braga que vai chegar ao largo
de Santo Estevão onde se situa a afamada Igreja de Santo Estevão que serviu já de tema a fados castiços de Lisboa.
E aqui bem perto de nós, não em Lisboa
mas em Sobral de Monte Agraço, existiu também uma igreja primitiva que tinha como orago S.Salvador, mas hoje só resta uma
porta gótica do século XIV integrada na reconstruída capela do cemitério público. É um espaço que há tempos idos fomos visitar,
quando nos dirigiamos para a Igreja manuelina de S.Quintino. A Igreja de S. Salvador, do Sobral de Monte Agraço, era românica-gótica
com belos capiteis em suas colunas grossas adossadas às paredes em igreja de nave única. Julgamos que os capiteis estavam
esculpidos com motivos de flora e fauna da região (cães, leitões ou cordeiros).
Fontes: - "O Prazo de Dom Leão, em Alenquer", documento de D. José Manuel
de Noronha e Menezes de Alarcão (conde dos Arcos) - Boletim
da Província da Estremadura, série II, nº IX-1945.
- "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira"
- "Roteiro de Portugal - Lisboa"
Carlos Nogueira
(lic. em economia, pelo ISEG)