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AS ANTIGAS IGREJAS DE
SANTIAGO DE ALENQUER E PALMELA
E A ORDEM MILITAR DE SANTIAGO DA
ESPADA.
Neste nosso trabalho, pensamos fazer um paralelismo,
em rectroespectiva histórica, entre as Igrejas de Santiago de Alenquer e de Palmela, como templos que foram durante quase
sete séculos, dos Cavaleiros da Ordem Militar e Conventual de Santiago.
Estamos em crer que a Igreja de Santiago
(S.Tiago) de Alenquer foi construída muitos anos, talvez dois séculos, antes da Igreja de Santiago de Palmela, esta situada
no Castelo dessa Vila; ponto de enorme importância estratégica entre os rios Tejo e Sado.
No dizer de Guilherme J. C. Henriques, em "A Vila de Alenquer" (fac-simile da edição de 1902),
na pág. 108, lemos: " nas costas, por assim dizer da Vila de Alenquer, a meia altura do monte, ergue-se presentemente uma
torre esguia e solitária, único vestígio que resta de uma igreja (a de S. Tiago) que foi fundada pelo primeiro rei de Portugal,
em comemoração de um milagre que teve lugar ao pé do postigo nas muralhas, em frente do sítio dela". Mas, mais adiante, o
mesmo autor escreve: "a Igreja, da qual a torre ainda existe, foi edificada por D. Afonso VI, no sítio da primitiva, à custa
da fazenda real; a sagração teve lugar a 11 de Setembro de 1663". Portanto, depreende-se que a fundação da Igreja foi obra
de D. Afonso Henriques, talvez a seguir ao ano de 1148, ano em que tomou Alenquer aos Mouros, e passados 500 anos foi reedificada
por D. Afonso VI. Porém, começou o seu destino de ruína sem vigilância desde a época em que foram extintas as Ordens Religiosas,
isto por volta de 1834.
Estamos em crer que na conquista de Alenquer,
D. Afonso Henriques contou com a ajuda dos cruzados que de Espanha e Sicília se encaminhavam para o Oriente a fim de libertar
Jerusalém do domínio dos muçulmanos. Crê-se que por Alenquer passaram os Templários como o atesta as pedras que apareceram
em obras no local onde existiu a antiga Igreja de Santo Estevão, mas também parece credível que foi D. Afonso Henriques que
admitiu em Portugal a Ordem Militar de Santiago da Espada; mas no nosso país o ramo português dessa Ordem só se tornou independente
do ramo castelhano no reinado de D. Dinis (1279-1325). E só no reinado de D. João I, mais concretamente em 1423, é que a cabeça
da Ordem de Santiago e o Convento-Mestre de Santiago se fixou no Castelo de Palmela. No fundo, toda esta vasta região do Vale
do Tejo e península do Sado-Setúbal teria constituído um movimentado teatro de operações militares entre cristãos e árabes,
com o Rei Conquistador (D. Afonso Henriques) a liderar todas as batalhas desde 1143 a 1148. Foi a conquista de Santarém onde
se distinguiu Mem Martins, foi Lisboa, com Martim Moniz e Palmela com Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador. Das "Lendas e Narrativas"
de Alexandre Herculano, retirámos os seguintes excertos: ".... enfileirados em
extensa linha os cavaleiros árabes saíram à rédea solta de trás da escura selva que os encobria; o seu número excedia cinco
vezes o dos soldados da Cruz; as suas armaduras lisas e polidas constratavam com a rudeza das dos cristãos, apenas defendidos
por pesadas cervilheiras (capacetes) de ferro e por grossas cotas de malha do mesmo metal...o Lidador, Gonçalo Mendes da Maia,
bradava Santiago, e o nome de Alá soava em um só grito por toda a fileira mourisca." ..."-- Perro maldito!. Sabe lá no inferno
que a espada de Gonçalo Mendes é mais rija que a tua cervilheira. E, dizendo isto, o Lidador caiu. Um dos seus homens de armas
voou a socorrê-lo. Mas o último golpe de Almoleimar (o árabe) abrira a sepultura ao fronteiro de Beja ( o Lidador ).
A Igreja de Santiago, de Palmela, construída
muitos anos depois da de Alenquer, é um notável templo da segunda metade do século XV (1443-1470) e serviu de Igreja Conventual
da Ordem de Santiago e Espada. Visitámo-la ainda há poucos dias, localizada dentro da cerca do Castelo de Palmela e junto
à actual pousada que foi o antigo convento dessa Ordem Militar. Verificámos o seu bom estado de conservação. É uma belíssima
Igreja, cujo interior é constituído por três naves seccionadas em cinco tramos. Do lado esquerdo da nave lateral está instalada
a arca tumular em pedra brecha de Arrábida que se julga nela repousar os restos mortais de D. Jorge (1481-1550), filho natural
de D. João II, e que foi o ultimo Mestre da Ordem de Santiago.
Foi D. Jorge que encomendou um extraordinário
Retábulo da Vida e da Ordem de Santiago, obra que deve ser dos anos de 1540, mais ou menos. O verdadeiro está hoje no Museu
Nacional de Arte Antiga, em Lisboa; na Igreja de Santiago, segundo cremos, estão cópias, que para o visitante desprevenido
pode supor tratar-se das reais. Este Retábulo retrata cenas da vida de Santiago, tais como a sua Pregação, a Conversão de
Hermógenes, a Decapitação do Santo, a Trasladação do seu corpo da Judeia para a Hispânia, a investidura de D. Pedro Fernandes
como Mestre da Ordem, a invocação do Mestre D. Paio Peres Correia à Virgem, em Tentúdia, além de ainda outras Imagens ( in
A Ordem de Santiago-História e Arte, Palmela, Câmara Municipal, 1990).
Para finalizar este nosso trabalho despretencioso
de pesquisa e de curiosidade histórica, resta-nos dar a conhecer que no altar-mor desta Igreja, mas depositado no pavimento
encostado à parede lateral direita, está uma moldagem em silicone do Alto Relevo gótico de Santiago aos Mouros. O verdadeiro
Alto Relevo está no sub-coro da Igreja de Santiago do Cacém.
E as personalidades ilustres de Alenquer,
ligadas à extinta Ordem de Santiago ? Mestres, Comendadores e outros títulares honoríficos ? É preciso recuar muitos séculos
e esquadrinhar muitos livros, actas, pergaminhos, etc, talvez já corcomidos pelo tempo.
Fontes
e recursos:
- " A Vila de Alenquer" -fac-simile da edição de 1902, de Guilherme João Carlos Henriques.
" Lendas e Narrativas " , de Alexandre Herculano.
Carlos Nogueira (lic. em economia, pelo ISEG-Lisboa-1975)