A Igreja-Basílica de Santa
Quitéria, de Meca, é talvez a mais bela Igreja do concelho de Alenquer, nos estilos neoclássico e barroco.
Foi mandada construir em 1757
pela Confraria de Santa Quitéria, sob protecção da Rainha D.Maria I, que a considerou Igreja Real e promoveu a sua consagração
à Igreja de S.João de Latrão, de Roma.
Foi concluída em 1799. Conta
a tradição, que uma imagem, reconhecida como sendo Santa Quitéria, foi encontrada na Quinta de S.Brás em 1238 e recolhida
pelo pároco da Igreja da Várzea. Meca era e foi até 1660, curato anexo à freguesia de Santa Maria da Várzea e só passou a paróquia independente, com título de priorado a partir de 1663.
Santa Quitéria viveu, segundo
a tradição, no século II, no tempo do Imperador Romano Adriano. Era filha de pais ilustres mas idólatras. Foi abandonada pela
mãe, mas recolhida por uma devota cristã que a educou. A defesa do Cristianismo, por que pugnou, na sua vida e época, custou-lhe
a perseguição e o martírio. A falta de documentação, fez criar um cariz lendário à sua vida, tendo sido venerada no século
XV (1400-1500) por quase toda a Europa. É considerada a padroeira e protectora do gado, nas curas da raiva ou hidrofobia dos
animais (horror à água).
Tendo sido construída uma
ermida , na época da aparição da imagem desta Santa, as curas operadas aos que iam em peregrinação a Meca, fizeram movimentar
o lugar, formando-se uma Irmandade que se constituiu, talvez entre 1700 e 1715, na Confraria de Santa Quitéria, que veio a
tornar-se numa das mais ricas de Portugal. A ermida ficou destruída com o terramoto de 1755 e em seu lugar lançaram-se oa
alicerces da actual Basílica, no ano que já indicamos.
A arquitectura neoclássica
da Basílica assenta nas raízes da engenharia do Convento de Mafra e regista semelhanças estilisticascom a Basílica da Estrela
e a Igreja de Santo António da Sè (Lisboa). As cúpulas das torres e o frontão com a cruz de pedra obedecem ao desenho do estilo
barroco. A frontaria da Basílica tem seis pilastras com capiteis jónicos. Estas pilastras apoiam na parte média, os três janelões
gradeados com o feitio de três simuladas varandas. Ao nivel da entrada há três altos p
orticos formando uma espaçosa galeria de acesso à porta principal. Na parede e lado esquerdo
há uma placa sobre a data da aparição da imagem dizendo que 750 anos depois a mesma imagem esteve em cada lugar da paróquia,
durante uma semana, participando o povo cristão, o bispo D.Josè Policarpo, as Irmãs Franciscanas M.M. e o pároco Padre Dr.
Inácio F. Belo; data desta lápide - 1989.
As duas torres sineiras ladeiam
um frontão, já referido, com a grande cruz de pedra. Esse frontão possui arcos contracurvados de quase um quarto de ogiva,
tendo ao centro um óculo de 4 curvaturas de semi-circunferência. À direita e à esquerda há 2 fogaréus, assim como mais quatro
no cimo das torres, esculturas de pedra em símbolo de pira, querendo, talvez, simbolizar a queima em fogueira dos mártires,
tal como teria acontecido a Santa Quitéria.
No interior a nave é seccionada
por pares de pilastras de estilo coríntio. Nas paredes laterais há quatro altares com vãos de arcos redondos ladeados por
colunas encimadas por frontões. O tecto é emforma de berço e trabalhado com madeira de tela, pintado em tons de cinza, verde
e dourado dando a impressão de relevos, contendo medalhões com cenas da vida e martírio de Santa Quitéria, com as seguintes
representações: Santa Quitéria e o Anjo Gabriel; Santa Quitéria no Monte Pombeiro; Santa Quitéria na corte de Luciano; A Conversão
das Sentinelas do Cárcere e O Martírio de Santa Quitéria. Pinturas que denunciam os estilos rócócó e neoclássico. São atribuídas
ao pintor José Antonio Narciso (1731-1811), e executadas já nos últimos anos de sua vida, portanto depois de 1800. Já depois
disso elas foram restauradas por Abel Moura em 1960. Na abóboda do cruzeiro ( ou transepto) estão pintados os quatro evangelistas:
S.Mateus; S.Marcos; S.Lucas; S.João. São atribuídas ao pintor Pedro Alexandrino que também pintou paineis para a Sé de Lisboa
e para a Basílica da Estrela. A tela com o tema "A Última Ceia" num altar do cruzeiro, tem a sua assinatura e a outra de "A
Pregação de S.João Baptista", também a ele lhe é atribuída.
A sacristia está adossada à fachada
posterior da capela-mor. Possui as paredes decoradas e o tecto é pintado com arquitecturas de perspectiva. Este tipo de pintura
que dá uma sensação de profundidade em altura, poderá levar a pensar-se que ela estaria inicialmente destinada para uma sala
mais alta.
As colunas interiores encostadas
aos quatro altares atrás referidos, são de pedra "brecha negra" que segundo uilherme João Carlos Henriques, veio de uma pedreira
que existiu em Monte Redondo, o mesmo tipo de pedra que fora utilizado no retábulo da Capela de Santo António, da Quinta de
Abrigada.
O dia 22 de Maio é dedicado a Santa
Quitéria, pelo calendário cristão. No passado todos os anos em Maio, Meca enchia-se de romeiros provenientes de toda a parte,
em especial, com devotos do concelho de Alenquer. O escritor Francisco Câncio, no seu livro "O Ribatejo" descreve de forma
pitoresca e bucólica: ... " a estrada é uma maravilha, e por toda ela se encontram galeras de muares e cavalos, charretes,
carroças e burrinhos, com gente simples a caminho da Santa, como nesta região se diz.Enfeitam-se os cavalos com fitas, o nastro
bento, para que não sejam atacados pela raiva. Passam a abarrotar de gente, camionetes das de carga, com os bancos dispostos
por forma a transportar o maior número de passageiros. Há quem saia de casa, de véspera, ao começo da noite, quando os sinos
ticam as Avé-Marias. É uma noite inteira de marcha por veredas e azinhagas. O tocador de harmónio, os férrinhos, as guitarras
e violas acompanham os ranchos sempre a tocar e a cantar. Os carros, conforme vão chegando, colocam-se lado uns dos outros,
nos dois lados do caminho ou da alameda. Desengatam-se as alimárias, tapam-se com grandes mantas(porque os animais vêm suados)
e na frente colocam-se as grandes alcofas com a ração. Frente ao cruzeiro da
Igreja, davam-se três voltas, onde o Senhor Padre, Paramentado, de caldeirinha e hissope na mão, lança pingos de água-benta
sobre os animais. A missa começava pelas duas horas da tarde e a Igreja regorgitava de gente; a meio da tarde sai a procissão.
Os sinos badalam e o seu som ecoa pelos campos verdes das colinas. Para a juventude, em Maio e na Primavera, em plena florescência,
a romaria de Santa Quitéria é um congresso de amor, em que os olhos falam, as almas sentem eos lábios beijam. É depois, hora
de aconchegar os estômagos; há barracas de petiscos, de comes e bebes e de frangos no churrasco; há vendas com queijadas de
Sintra e barraquinhas de tiro. Apareciam também, os retratistas, para as pessoas e grupos tirarem retratos de lembrança para
a posteridade. Outro efeito muito colorido era dado pelos arranjos feitos em varas de cana que eram rachadas em cruz de cima
para baixo, e por essas rachas introduziam-se pares ou brincos de cerejas formando as "rocas de cerejas" que os peregrinos
agarravam na parte inferior da cana.
Na grande Alameda há um cruzeiro
e nele está inscrito ter sido mandado erigir pelo Administrador João Vicente, em 22 de Maio de 1869, portanto no dia de Santa
Quitéria, e há 131 anos. Vivia-se no reinado de D.Luis I, que acabou com a escravatura e a pena de morte em Portugal. Há também,
à entrada da Alameda, do lado direito, um chafariz, hoje quase desactivado e pouco protegido, com reduzido fio de água a correr
para um tanque rectangular. Este chafariz tem a seguinte inscrição: " com as esmolas dos devotos e confrades da glorioza Santa
Quitéria se fez esta para cómodo dos romeiros que à sua Igreja a vêm venerar"
Este ano, no último domingo
de Maio, foi concelebrada missa solene e sermão, de que foi orador o senhor padre Anselmo, colega de estudos de filosofia
e teologia do senhor prior da paróquia de Meca. A procissão saiu às 17 horas com os andores bem cuidados e floridos, entre
os quais o de Santa Quitéria. Participou o grupo folclórico da Camacha, da ilha da Madeira, e a banda de música da SUMA(Alenquer)
fechou a procissão.
Fontes bibliográficas:
- O Concelho de Alenquer, de António de Oliveira
Melo, António Rodrigues Guapo e José Eduardo
Martins.
- Alemquer e Seu Concelho, de Guilherme João Carlos
Henriques
- 18
- Ribatejo Histórico e Monumental, de Francisco
Câncio.
Carlos Nogueira