|
AS RUÍNAS
DO INACABADO CONVENTO DA REFORMA
DE MONTEJUNTO
Uma história envolta em grande mistério
O
Convento da Reforma de Montejunto, cujas ruínas de sólidas paredes mestras se encontram no cume da Serra de Montejunto, teria
a sua construção sido iniciada por volta de 1760. Parece que não foi concluído, por a Reforma dos Dominicanos não ter ido
avante, e por isso, deixar de ter justificação, para a qual seria esse Convento utilizado. São os restos de uma edificação sólida situada próximo, para poente, da Ermida de S. João.
Estas ruínas não se devem confundir com outras que estão na rectaguarda da Capela de Nª Sª das Neves. Ambas são de Conventos
da Ordem dos Dominicanos. O primeiro foi efectivamente construído, e julgamos perfeitamente acabado, no século XIII, entre
1217 e 1220, quando o frade português Frei Soeiro Gomes, aqui se fixou. O reino, nessa época, sofria de interdição para concessão
de terras às Ordens Religiosas, pelo conflito que existia entre o Rei D. Afonso II e as suas irmãs D. Sancha e D. Teresa.
Os dominicanos eram pregadores, e não eremitas; por isso a sua vocação era estarem junto das comunidades e não num lugar tão
inóspito e desertificado, como é o topo da Serra de Montejunto. Estiveram aqui, provisóriamente, até lhes serem dadas terras
perto de Santarém para a construção do seu Convento. Mas, foi, este que edificaram atrás da Capela de Nª Sª das Neves, o primeiro
Convento dos Dominicanos construído em Portugal. Mas não é deste Convento que tratamos neste nosso estudo. É sim daquele que
eles tomaram a obras mas que não concluíram, depois de voltarem para esta Serra, passados 500 anos. Desta vez, veio Frei Manuel
d' Assunção, que com a sua equipa pensou estabelecer uma profunda Reforma da sua Ordem, seguindo e cumprindo com mais rigor
os preceitos do fundador, S. Domingos de Gusmão. Os Dominicanos em comunidade com os Trinitários (os da Santíssima Trindade
) e com os Franciscanos, formavam o conjunto das Ordens dos mendicantes. Em Lisboa existia nessa época (1700) um Convento
da Ordem de S. Domingos, da invocação do Santíssimo Sacramento.
Há
autores que dizem que este Frei Manuel d' Assunção veio para Montejunto no princípio do século XVIII, mas outros ou até os
mesmos referem que a Reforma começou a ser estudada entre 1760 e 1765. Alguma discrepância há, ou então a sua implementação
já se deu nas mãos de seus sucessores. O que é curioso observar, é que os trabalhos desta Reforma, que daria o nome a este
Convento se fosse concluído, coincide com o período tumultuoso da expulsão dos jesuítas de Portugal, pelo Marquês de Pombal.
O Rei D. José I, foi alvo de atentado em 3 de Setembro de 1758, três anos depois de ter ocorrido a catástrofe do terramoto,
e Lisboa andar a ser reconstruída. Sebastião José de Carvalho e Melo, que ainda não era marquês, nem sequer conde, investigou
os culpados e sempre suspeitou, com ou sem razão, dos jesuítas como instigadores. Os culpados encontrados foram os Távoras
(marquês, marquesa, dois filhos); o genro, conde de Atouguia; o duque de Aveiro e mais quatro plebeus. O Rei recompensou o
seu super-ministro com o título de Conde de Oeiras, em 6 de Junho de 1759 e no ano seguinte foi-lhe atribuído o título de
marquês de Pombal. Este Senhor via com enorme preocupação o poder crescente dos jesuítas em Portugal e em especial no Brasil.
Inspirado pela monarquia francesa, de Luis XIV, com a qual contactou de perto quando esteve em França, o marquês veio a instituir
pessoalmente um poder absoluto sem limites e sem reservas do próprio Rei D. José. A Companhia de Jesus ( os jesuítas), gozava
de um enorme prestígio, não só pelo seu já desmesurado poder económico na exploração de grandes propriedades no Brasil, mas
pelo nível de qualidade e grandeza com que administravam colégios, frequentados pelas melhores e mais ricas famílias de Portugal.
Além disso os jesuítas eram também, os confessores do Rei.
Uma
das medidas de intervenção indirecta que o marquês de Pombal teve contra o poder económico dos jesuítas foi, mandar formar
monopólios de producão e distribuição de produtos. Aconteceu com a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, no Brasil e com
a Companhia das Vinhas do Douro, em Portugal. Depois converteu a Inquisição, onde os jesuítas eram os chefes superiores, em
Tribunal de Realeza. Sem possuir provas do envolvimento dos jesuítas no atentado de D. José, mas por que porventura lhe terá
chegado aos ouvidos, que era pronunciada nos sermões de alguns jesuítas a ameaça de mais catástrofes divinas, a seguir ao
terramoto de 1755, o padre Gabriel Malagrida morreu na fogueira sob a acusação de ter participado na conjura dos Távoras.
Talvez
o desespero dos jesuitas levasse a procurar apoio de outras Ordens, por exemplo da dos Dominicanos, e estes pensassem por
força das tenebrosas ameaças de perseguição, tocar à união e ao recolher, para estudar uma Reforma de mais aspereza, humildade
e pobreza, nos seus actos, situação que imaginamos e da qual mais à frente trataremos.
Há
ainda um outro facto de grande impacto político e militar; foi a eclosão da guerra dos sete anos, por esta época e na qual
Portugal se viu obrigado a cair ou a participar, quase já no final da mesma, em 1762, mas que fez devastar o país com mortes,
saques, incêndios e miséria. Formara-se um bloco entre a França, Rússia e França a que se associou depois a Espanha, com o
pacto de Família que Luís XV fez com esta para disputar à Inglaterra associada com a Prússia o domínio do comércio mundial
que os ingleses vinham detendo em crescendo. A França propôs a Portugal este pacto de Família mas o Rei D. José respondeu
que não via justificação em colocar-se em confronto com a Inglaterra, velha aliada. Portugal foi invadido no 1º do Maio de
1762, pela zona do Douro, mas Vila Nova de Foz Côa ofereceu a resistência necessária para que as forças franco-espanholas
levantassem o cerco; o mesmo já não veio a suceder em Castelo Rodrigo e Almeida que em Julho desse ano foram tomadas sem dificuldade.
O Rei D. José I comunica ao Provincial da Ordem da Santíssima Trindade a necessidade de os conventos alojar as tropas , pois
não seria possível em estado crítico de guerra manter-se as isenções das ordens religiosas. A Portugal chega, entretanto o
general inglês conde Guilherme de Chambourg e Lippe que foi decisivo na condução do nosso exército, colocando o seu quartel-general
em Abrantes, para defesa da linha do Tejo. Mas, felizmente, a 30 de Novembro desse mesmo ano foi assinado um armistício entre
o conde de Aranda, comandante das forças espanholas e o conde de Lippe, e por fim a paz veio a ser assinada em Versailhes,
em Fevereiro de 1763.
Neste
lamentável estado de profunda convulsão, por um lado a guerra e por outro a perseguição implacável aos jesuítas, é muito provável,
que as Ordens Religiosas, e neste caso os Dominicanos sentissem a necessidade de refugiarem-se na serra de Montejunto, num
convento que já 500 anos antes tinha sido morada deles; estudariam em recolhimento a crise política e religiosa, que eram
os sinais evidentes dessa época; até porque também o marquês de Pombal tinha rompido as relações com a Santa Sé nesse período
de 1760 e 1770, e instituído a censura religiosa. Os Dominicanos que se alinhavam com os da Santíssima Trindade e os do Santíssimo
Sacramento, teriam sentido a necessidade de com urgência constituir uma Reforma Religiosa, nos seus actos, atitudes e práticas
religiosas. Talvez até pensassem que o melhor era construirem um novo Convento à altura das reais necessidades de se reunirem
em colégios alargados, como se tratasse de um concílio à escala provincial. E com uma guerra em Portugal, desconhecendo-se
o tempo de duração, um convento novo e maior ofereceria outras condições de albergue de frades que a ele se dirigissem pedindo
abrigo. Talvez tenha sido essa também a intenção de se iniciarem as obras de construção desse novo Convento, paredes potentes
e de aspecto a englobar amplos espaços; que ainda hoje se podem discortinar das ruínas que lá estão no cume da Serra de Montejunto,
talvez até numa posição de fronteira entre os concelhos de Alenquer e do Cadaval. Como, porém, a guerra não se eternizou,
e foi até breve, outras perspectivas despontaram no horizonte e talvez, provavelmente, esse facto de a paz ter voltado, originasse
a desmobilização de muitos frades nos trabalhos de estudo de uma Reforma, que não se chegou a fazer, e por consequência disso,
as obras do Convento que estava em marcha, pararam, para não mais serem retomadas. Voltaram-se, cremos nós, os frades, para
o caminho de descida da Serra ao encontro das comunidades, nas vilas, aldeias e cidades.
Há
ainda, porém, um outro acontecimento, que alegadamente, o marquês de Pombal denuncia de conspiração religiosa dirigida ou
com a participação de frades da Reforma de Montejunto. Ou seria um contra-ataque à área de domínio do marquês, como retaliação
à perseguição aos jesuítas e à quebra de poderes eclesiásticos que a accção do marquês fazia despontar ? Parece, segundo Francisco
Câncio, que o conde da Carnota possuiu cópia de uma carta do marquês de Pombal, de 30 de Março de 1765, que inseriu nas "Memórias
do Marquês de Pombal". Essa carta, deste Marquês, a dado passo, diz: "acabamos, felizmente, de descobrir uma conjuração que
não nos levava a menos do que uma conspiração, debaixo do pretexto de religião, começada e dirigida pelo Geral da Ordem dos
Dominicanos Espanhóis, de combinação com o Geral dos Jesuítas, ambos patrocinados e protegidos pela Côrte de Madrid" ;...
e menciona o caso em questão: -- fez o referido Geral, por intermédio de um frade dominicano e por alguns outros conhecidos
em Portugal pelo título de "Reforma da serra de Montejunto", passar algumas cartas cheias de máximas : - " que nós eramos
hereges, ímpios e profanadores do Santíssimo Sacramento e que para bem e apoio da Religião era mister vingar o Santíssimo
Sacramento ofendido pelos profanadores e pelos ímpios". Essas cartas teriam chegado às mãos dos bispos e estava combinado
abrir-se todas as igrejas de Lisboa e tocar sinos entre as 8 e 9 horas da manhã do dia 25 de Março de 1765, para congregar
o povo que o exortariam a vingar o Santíssimo Sacramento contra os sacrilégios e contra os heréticos.
Parece
que os vereadores de Lisboa conheceram esta conjuração quatro dias antes e avisado o Provincial dominicano que pelos vistos
não tomava parte na agitação, esta conjura foi abortada, tendo ficado conhecida por a "conspiração da Reforma de Montejunto".
Talvez que uma vez gorada esta "conspiração", deixou de ter razão fazer-se a Reforma da serra de Montejunto, e anulados os
objectivos, foram cancelados os trabalhos de obras de pedreiro para construir o Convento da "Reforma de Montejunto". Não teria,
este trama, contribuído para uma progressiva "ordem nova" de extinção das Ordens Religiosas, em 1834?
Fontes: - História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão
- Ribatejo Histórico e Monumental, de Francisco Câncio - 1938
Carlos Nogueira
|